Corrupção, efeito secundário da moral laica

 

Corrupção, efeito secundário da moral laica

 

–  Fernando José Bosco  

 

No Brasil de hoje, há um vidro invisível separando o verdadeiro sentido da existência humana da sociedade na qual o homem vive. Esse “vidro” é solidificado por uma doutrina anti-cristã – o positivismo.
 
Apesar de ser quase desconhecida para o brasileiro comum, pouco afeito que é à filosofia, essa doutrina venenosa é distribuída diariamente, em pequenas doses, nas escolas, nos meios de comunicação, na fundamentação de nossas leis, etc. Seu erro principal reside na afirmação de que a organização da sociedade humana deve excluir por completo as considerações religiosas e criar seu próprio decálogo laico – a ética moderna.

 

Vivemos hoje a era pós-cristã. A sabedoria do Evangelho foi banida de nossa vida pública e substituída pela “ética”, um código nebuloso do que é certo ou errado, que, por ser uma convenção entre humanos, se mostra insuficiente para os manter dentro das fronteiras da justiça.
 
Ao espalhar-se pelo ocidente, essa doutrina teve o efeito nefasto de expulsar Jesus Cristo de nossas leis, de nossas instituições, de nossa vida social, e substituiu os ensinamentos do Salvador do Mundo por um sistema que favorece o oportunista. Em consequência, apesar dos avanços tecnológicos, que deveriam tornar mais fácil a vida, a sociedade humana debate-se entre problemas que se avolumam a cada dia. E alguns deles têm potencial para destruir o próprio modelo social que conhecemos. Não é exagero, podemos dar exemplos. Um destes problemas é a criminalidade organizada, que vem colocando em cheque o próprio Estado e já impõe suas “leis” a uma parcela de brasileiros que vive em áreas sob seu domínio. Mas, disso falaremos outro dia.

 

Outro exemplo claro desses problemas que a “moral sem Deus” fomentou e se mostra incapaz de domar é a “cultura da corrupção”.

 

Da mentalidade positivista, prevalente em nossos ambientes empresariais e políticos, deriva a ideia infame de que a ambição é uma mola propulsora do progresso. Por isso, alguns efeitos colaterais desse vício, que abre caminho à propina e ao suborno, deveriam ser tolerados, porquanto acelerariam os negócios. Esse desvio moral entrou de tal maneira nos costumes nacionais que vemos todos os dias notícias de corrupção, com incalculáveis somas de dinheiro desviadas dos cofres públicos. Dinheiro que salvaria vidas nos hospitais, que tiraria milhares de jovens da ignorância, que geraria empregos para muitos pais que se desesperam ao não conseguir alimentar seus filhos.
É verdade que a corrupção sempre existiu, mas a doutrina positivista que lhe dá cobertura elevou esse pecado à categoria de esporte da ambição, o hobbie da esperteza. E, revestido dessa nova fisionomia, passou a ser tolerado pela opinião pública. Por isso, não é raro que políticos flagrados com a “boca na botija” consigam se reeleger. A “moral prática” prevaleceu sobre a moral de Jesus Cristo.

 

Contudo, a tolerância em relação à corrupção é profundamente nociva à sociedade e mereceu críticas duras do Papa Francisco. Em sua homilia pronunciada no dia 13 de novembro, o pontífice esclareceu sobre a diferença moral entre o pecado comum e o de corrupção. Podemos sentir a gravidade em suas palavras:

 

“Esta é a diferença entre o pecador e o corrupto”: quem leva “vida dupla é corrupto”; quem “peca, mas gostaria de não pecar”, é apenas “fraco”. Este “recorre ao Senhor” e pede perdão. “Deus o ama, o acompanha, está com ele”.
Mas “o corrupto está amarrado a seu estado de autossuficiência, não sabe o que é a humildade”. Jesus chamava esses corruptos de hipócritas ou, pior ainda, de sepulcros caiados, que parecem bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão”.

 

“Uma podridão envernizada: esta é a vida dos corruptos.” “Aqui não se fala de perdão”, observa o Papa, “Jesus não se cansa de perdoar e nos exorta a perdoar até sete vezes por dia o irmão que se arrepende. No mesmo Evangelho, porém, Cristo adverte: Ai daquele que provoca escândalos!.. Jesus não está falando de pecado, mas de escândalo, que é outra coisa, e acrescenta que é melhor que lhe coloquem no pescoço uma pedra de moinho e o joguem no mar do que causar escândalo a um só destes pequeninos”.

 

Essas considerações, vivificadas pelas palavras do Papa Francisco, nos parecem oportunas ao nos aproximarmos do Natal, pois elas nos levam a valorizar todo o bem que nos veio do nascimento do Salvador e compreender que não são os preceitos positivistas e a “ética moderna” que servirão de alternativa aos ensinamentos do Evangelho. Estes nos levam à salvação e aqueles à infelicidade e à autodestruição.