Capítulo I

1 – Predestinação de Nossa Senhora.

 

1. Resumo A Virgem Maria, Mãe de Deus, é a mais eminente de todas as criaturas.
Por predestinação de Maria, entende-se o lugar especial que ela ocupou no pensamento de Deus ao fixar o plano da criação. A Igreja, na liturgia e pela boca de seus doutores, ensina esta gloriosa predestinação. É este fato que explica todos os privilégios que descobrimos em Nossa Senhora.

 

2. A Santíssima Virgem Maria – Nossa Senhora é a criatura abençoada, escolhida por Deus para ser a Mãe de Jesus Cristo, nosso Salvador. E porque Jesus Cristo é Deus, Nossa Senhora é, com justiça, chamada Mãe de Deus, título este que a coloca acima de todas as criaturas.

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3. Conseqüências do título de Mãe de Deus — Foi em previsão deste papel de Mãe de Deus que Nossa Senhora recebeu primeiro as graças que deviam prepará-la para esta dignidade e depois os privilégios, o poder e a grandeza que dela fizeram a rainha do céu e da terra. Assim, Nossa Senhora foi, de antemão, predestinada por Deus para um lugar único na criação.

 

4. Predestinação de Nossa Senhora — Por predestinação de Nossa Senhora entende-se o lugar eminente que ela ocupava nas cogitações de Deus quando, por assim dizer, determinava o plano do mundo que ia criar. Este lugar é o primeiro, após o do Verbo encarnado, e muito acima de todos os seres criados.
Com efeito, desde toda a eternidade, Deus previu a Encarnação do Verbo, seu Filho, reparador do mundo e chefe da humanidade redimida. Previu, pois, tudo quanto preparava à Encarnação e especialmente o que se refere a Maria, a mãe de seu Filho encanado, assim como as graças de que a favoreceria para torná-la digna de seu papel de Mãe de Deus.

 

5. Comparação — Quando a Igreja quer, numa festividade solene, num Congresso Eucarístico, por exemplo, preparar a procissão final, os organizadores mandam, de antemão, fabricar uma custódia esplêndida, na qual a Sagrada Hóstia esteja dignamente rodeada de ouro finíssimo e de pedras preciosas. A Santíssima Virgem foi, de algum modo, a primeira custódia que encerrou o corpo do Verbo Encarnado; Deus quis, por isso, prepará-la com especial cuidado, exornando-a de todas as virtudes, enriquecendo-a de todas as graças.

 

6. Ensinamentos da Igreja sobre a predestinação de Maria — A Igreja afirma e louva esta predestinação especial e gloriosa de Maria pela boca de seus doutores e, também, em várias passagens da sua liturgia. Escolhemos as três seguintes:

 

1º Nas ladainhas lauretanas, ela chama a Maria trono da Sabedoria e reconhece, desta maneira, a conformidade existente entre a Mãe do Verbo e seu divino Filho, como entre um trono e o príncipe que o ocupa.

 

2º Na epístola da festa da Imaculada Conceição, a Igreja esgota, aplicando-as a Maria, as expressões, os modos de dizer que ela foi sempre o objeto das cogitações de Deus “antes das colinas, antes dos rios, antes dos mares, antes das montanhas, antes de própria terra”, isto é, antes da criação do mundo.

 

3º No Ofício Parvo da Bem-aventurada Virgem Maria, o capítulo das vésperas: “Ab inítio, etc., aplica à Nossa Senhora estas palavras: “Fui criada antes dos séculos”, que, sob forma diferente, encerram o mesmo pensamento”.

 

7. Conclusão – O lugar de Maria nos planos divinos, mesmo antes da criação do mundo, deve inspirar-nos alta idéia de sua grandeza.

 

Não nos admiraremos dos privilégios que nela descobrimos, estudando-a detalhadamente; não nos surpreenderá nem o poder ilimitado que lhe deu seu divino Filho, nem a bondade maternal com que trata os homens, escolhida que foi para colaborar na salvação do mundo.
Assim, incremetam-se, ao mesmo tempo, nossa confiança nela e nossa veneração pelos seus méritos e sua dignidade.

 

8. Prática — Aplicar-se, por devoção, ao estudo dos livros que tratam de Maria Santíssima, notadamente deste.

9. Leitura — Uma grande graça de Nossa Senhora da Salete. (Autêntico) — Costumávamos, quando chegava o verão, irmos passar
dois meses, para descansar das fadigas da vida ativa do Rio, na casa de uns parentes nossos, muito amigos, no recanto de uma pequena cidade à beira-mar, no Estado do Rio.

 

A casa onde morávamos era afastada do centro, numa linda praia, chamada Praia Grande. Além da nossa casa, havia mais a “Casa do Inglês”, assim chamada por morar nela um senhor inglês distintíssimo, casado com moça brasileira, casal muito hospitaleiro e amável.
As outras eram casinhas de pescadores ou trabalhadores da roça, que moravam em pequeninas casa de sapé, uns à beira da praia, outros no alto do morro.

 

A praia era linda, com a Ilha Grande ao fundo e mais algumas ilhas, umas grandes, outras pequenas. Atrás da casa, montanha grandiosa. Mata virgem onde se encontrava até o cedro, que servia para a construção dos barcos.
Muito água vinda de grande cachoeira. A casa era muito aprazível e o jardim rústica era guarnecido com brincos de Rainha, sabugueiros, com os seus lindos buquês de noiva, crótons, samambaias, palmeiras grandes em leques e tufos de palmeiras finas.
Lindas “estremosas”, flores rústicas e muita folhagem.

 

Rodeava a casa formoso pomar, guarnecido pela natureza de grandes Lages e pela mão do homem, de coqueiros, mangueiras, cajueiros, goiabeiras, laranjeiras, pés de cambucás e de jabuticaba. Na entrada do jardim havia uma palmeira que marcava o nascimento de um dos filhos do dono da casa. Botes e canoas para passeio, redes entre árvores, peixe excelente, água de coco, palmitos, frutas e convivência acolhedora e amável. Costumava dizer que aquele lugar era para mim o Paraíso Terrestre!

 

Em noites enluaradas, o pessoal tocava violão e cantava e ficávamos na praia até tarde, vendo os pescadores deitar as redes e os covos (cestos compridos de vime para pesca).

 

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Morava numa das casinhas no alto do morro, uma mulher com a idade aproximada de 60 anos, de cor branca, com um filho único, rapaz excelente, moreno queimado, talvez com uns 28 anos de idade, empregado na Escola de Grumetes, na enseada Batista das Neves.
A mãe vivia trabalhando na roça. Descia algumas vezes para vender alguma quitanda, ou comprar peixe, ou visitar os conhecidos.
Chamava-se a “Sá Joaquina” e ele o “Mineiro”. Almas simples, ingênuas, tipos completos de roceiros. À tardinha nós nos sentávamos na areia da praia enquanto os meninos pescavam ou passeavam de bote. Tardes lindíssimas de verão!

 

Nós nos divertíamos em conversar com aquela gente humilde e boa de vizinhança. Eles vinham e lá ficavam conversando até o anoitecer.
Entre eles estava o “Mineiro”. Depois da volta do trabalho e do seu jantar, descia o morro, acocorava-se na praia diante do meu marido e ouvia a conversa sem nada dizer, embevecido.

 

 

 

Quando meu marido levantava-se, ele dizia: “Seu Dotô, té manhã”! E, no dia seguinte, si não chovesse, era a mesma cousa.
Eles tinham por nós uma verdadeira veneração.
Costumava eu levar morim, chitas, sabonetes, folhinhas (que muito gostavam) para que, quando nos fizessem a primeira visita recebessem uma lembrançazinha. Procurava recebê-los com muita consideração, razão porque ficavam muito lisonjeados.
Em troca, às vezes, de um sabonete ou de uns metros de morim, recebia logo depois, uma cesta de aipim, frutas, peixes, etc… pois não se deixavam vencer em amabilidade.

 

Quando falávamos em voltar para o Rio, eles se entristeciam e pediam a Deus para que voltássemos breve.
De modo que nós queríamos muito bem àquela gente sincera e simples que tanto nos estimava.
Num verão, quando cheguei à Praia Grande, soube a triste notícia de que o “Mineiro” havia falecido, em 3 dias, de um acesso bilioso, sem um recurso e que a “Sá Joaquina” estava quase louca.

 

Dias depois ela me apareceu magra, acabada, com olhar desvairado.
Quando nos viu, chorou muito e começou falando de cortar o coração.
Disseram-me os vizinhos que ela levantava-se cedo e depois vagava na praia o dia todo, indo até a cidade sem saber o que fazia, chamando pelo filho. O golpe tinha sido cruel. O filho era tudo para ela.
Realmente era um filho ótimo! Vivendo exclusivamente para sua velha mãe.

 

Eu confesso que fiquei estático diante de tal dor!
Não tive uma palavra de consolo mesmo, porque nada adiantava, estando ela num estado anormal.
Costumava levar um cento de estampas de Nossa Senhora da Salete, como apareceu nas montanhas da França a dois pastorinhos, Maximino e Melânia, chorando pela conversão dos pecadores.

 

Distribuía àquela gente pedindo que sempre que pudessem, rezassem uma Ave-Maria para consolar as lágrimas de Nossa Senhora.

 

Eles gostavam muito de ouvir contar a aparição.
Na aflição de “Sá Joaquina” só vi uma solução: Nossa Senhora da Salete que também chorava por nós.
Mandei chamá-la e disse-lhe que só Nossa Senhora a poderia consolar e que ela guardasse com fé aquela estampa.
Beijou-me a mão chorando e guardou a estampa.
No ano seguinte voltei à Praia Grande. Uma das primeiras visitas foi a “Sá Joaquina”.
Bem disposta, corada e alegre. Fiquei estupefeta!

 

Ela percebendo o meu espanto, rindo, em linguagem simples de roceira, disse pouco mais ou menos o seguinte?
Foi o milagre da sua santa. Desde o dia em que o Senhor me deu a estampa parecia que minha aflição não era tão grande. Comecei a sentir consolo. Depois Nossa Senhora me deu um sonho lindo!

 

Sonhei que Nossa Senhora apareceu na porta da minha casa.

 

Eu lhe perguntei: “Por que levou o meu filho, que tanta falta me faz?” — Nossa Senhora respondeu: “Eu o guardo comigo, porque era muito bom e trabalhava demais”. (E contava ela que Nossa Senhora dizia isto muito triste, o que coincide com a queixa de Nossa Senhora na Aparição da Montanha da Salete, da falta de guarda dos domingos). “Mas, minha filha, continuou Nossa Senhora eu vou te dar em compensação um grande presente: e desaparecendo para trás da casa voltou trazendo na mão um cálice cheio de sangue que transbordava e me ofereceu”.

 

— Aí eu acordei.

 

Fiquei contente vendo Nossa Senhora tão linda! E querendo adivinhar o sonho.
Fui na cidade e contei a um padre. Ele me disse que o presente que Nossa Senhora me dava era a Sagrada Comunhão, que era o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Então confessei e comunguei, o que já não fazia há muitos anos. Depois fiquei como o senhor vê, contente, certa que o meu filho está no céu, com a Santinha, Nossa Senhora, que o senhor me deu. E eu estou aqui esperando o meu dia de ir para o céu também.
Isto ela me disse comovida com palavras rústicas, de forma que não sei exprimir.

 

Chorei de comoção. — A transformação daquela alma tinha sido um grande benefício para ela e também uma enorme graça que Nossa Senhora me concedera em recompensa ao fervor com que eu distribuía as suas estampas. Achei um dever de gratidão deixar escrito este favor importante.