Catecismo Mariano - Capítulo II

Promessas e figuras de Maria

 

12. Resumo. Assim como houve profecias e figuras de Jesus, assim também as houve que anunciaram e figuraram Nossa Senhora. Entre as profecias apontemos a que remonta ao paraíso terrestre: a mulher a esmagar a cabeça da serpente e as de Isaías: a Virgem-Mãe e a Vara de Jessé.

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12. Maria foi figurada por símbolos e pessoas — Entre os símbolos citemos: a Escada de Jacó, a Arca da Aliança, o velo de Gedeão, o Arco-íris e a Sarça Ardente. Entre as pessoas figuram principalmente: Eva, Judite e Esther. Todas estas figuras embelezam a liturgia, a pintura e a literatura religiosa.

 

13. Promessas e figuras em geral. — Os traços gerais da religião cristã foram não somente previstos e ordenados por Deus, mas ainda, por uma disposição de sua Providência, prometidos e figurados no Antigo Testamento. Estas promessas e estas figuras são comparáveis aos alicerces que, enterrados no solo, anunciaram já os contornos e as proporções do edifício.

 

14. Exemplos. — Cada um conhece várias profecias relativas aos mistérios da vida e da morte de Nosso Senhor; por exemplo a que se refere ao seu nascimento em Belém. Há igualmente figuras atinentes, por exemplo, ao sacrifício da cruz, que figurava o de Isaac, ou à Sagrada Eucaristica, que o maná anunciava.

 

15. Razões das promessas e figuras relativas a Maria. — A Virgem Santa tem no plano da Encarnação e, por conseguinte, da religião cristã, uma importância de primeira ordem. Por esta razão é que Deus quis fosse Nossa Senhora, como Nosso Senhor Jesus Cristo, prometida e figurada no Antigo Testamento, desde a origem da humanidade, como há de ser honrada e abençoada, como seu divino Filho, até o fim dos tempos.
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16. Promessas ou profecias. — Escolhemos três entre as principais: 1º Deus, diante dos nossos primeiros pais, falando à serpente, diz: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre sua raça e a tua, e ela te esmagará a cabeça”. A Igreja reconhece Nossa Senhora nesta mulher gloriosa e Jesus Cristo seu Filho nesta raça que há de esmagar a cabeça da serpente, isto é, o poder do demônio.

 

1217. Segunda profecia. — Lemos em Isaías: “A Virgem conceberá e dará a luz um filho que será chamado Emmanuel”. O nome de Emmanuel significa, em hebraico, Deus conosco e convém perfeitamente a Jesus Cristo e o resto do texto a Nossa Senhora, sua Mãe sempre virgem.

 

18. Terceira profecia. — Outra passagem de Isaías nos diz que uma vara sairá de Jessé (nome do pai de David) e que da sua raiz nascerá uma flor sobre a qual pousará o Espírito de Deus. Nossa Senhora é essa flor perfumada de todas as virtudes sobre a qual descansou o Espírito Santo no dia da Anunciação. Estas duas últimas profecias foram incluídas, pela Igreja, no Ofício da Santíssima Virgem. Repetem-se cada dia durante o Advento. (Em Prima: Ecce Virgo concipiet.. em Terça: Egreditur virga…).

 

19. Figuras em geral. — Por figuras entendem-se pessoas ou coisas que têm com o objeto figurado analogias surpreendentes. Assim, por exemplo, diz-se que o sacrifício do pão e do vinho, oferecido por Melchisedech, era a figura da Sagrada Eucaristia, tão estupenda é a semelhança entre ambos.

 

20. Figuras de Maria. – Encontramos no Antigo Testamento várias espécies de figuras de Maria.Umas são símbolos, como a Escada de Jacó, a Arca da Aliança, o velo de Gedeão, o Arco-íris, a Sarça Ardente. Outras são pessoas, por exemplo: Eva, Judite e Esther.

 

 

Nossa Senhora prefigurada por símbolos

 

21. A Escada de Jacó. – Trata-se da escada que o patriarca Jacó viu em sonho, na sua fuga. Pousava na terra e alcançava o céu. Deus estava no topo e os anjos por ela desciam e subiam. Os santos doutores vêm nisto uma figura de Maria: 1º porque se a escada de Jacó punha o céu em comunicação com a terra, é por Nossa Senhora igualmente que Deus baixou até nós e que os homens sobem até Deus.

 

2º Porque se a natureza pôs Nossa Senhora em contato com a terra, a graça alçou-se até o próprio trono de Deus.

 

3º Porque as palavras que Jacó pronunciou ao despertar de seu sono, aplicam-se perfeitamente a Maria: “É aqui, disse o santo patriarca, a casa de Deus e a porta do céu”, dois gloriosos títulos muitas vezes conferidos a Nossa Senhora pela Santa Igreja.

 

22.A Arca da Aliança. – A Arca da Aliança era um cofre de madeira preciosa e incorruptível, inteiramente revestido de ouro. Foi construída por Moisés para receber o maná e as tábuas da lei. Os Hebreus carregavam-na consigo na sua marcha em demanda da Terra da Promissão, Ela figura Nossa Senhora: 1º por sua composição de cedro tido como incorruptível. Como a madeira preciosa da arca, o corpo de Nossa Senhora escapou da corrupção da morte, e sua alma também, da corrupção mais hedionda originada pelo pecado.

 

2º Por seu conteúdo. Maria trouxe em seu seio virginal a Jesus Cristo, o maná verdadeiro, o próprio autor da lei.

 

3º Por sua função. A arca era o sinal sensível da aliança de Deus com seu povo; Nossa Senhora foi o instrumento admirável desta aliança na hora da Encarnação. A Igreja, nas ladainhas, confere a Nossa Senhora o belo título de arca da aliança, Federis arca.

 

23. Velo de Gedeão. – É uma pele de ovelha que foi o instrumento de um duplo prodígio concedido a Gedeão. Cobriu-se primeiro de orvalho, enquanto a terra em derredor ficou seca; depois permaneceu seca, quando a terra em derredor se cobriu de orvalho.

 

1º Nossa Senhora ficou cheia de graça no meio da humanidade decaída, e é deste velo imaculado, isto é, de sua carne virginal, que foi plasmada a carne de Jesus Cristo, que é como o revestimento do Verbo.

 

2º Do mesmo modo que o velo ficou seco, ao passo que o chão se orvalhou, Nossa Senhora permaneceu sem pecado no meio de todos os homens culpados.

 

24. Arco-íris. – O arco-íris foi um sinal dado por Deus a Noé, como penhor da paz restituída à terra.

 

1º Da mesma maneira, a aparição de Nossa Senhora neste mundo foi o penhor da próxima reconciliação do céu com a terra culpada, pela Encarnação de Nosso Senhor.

 

2º Da mesma maneira ainda que o arco-íris irradia sete cores, a alma de Nossa Senhora foi ornada dos sete dons do divino Espírito Santo.

 

25. Sarça Ardente. – Moisés viu no Monte Horeb uma sarça da qual saíam chamas ardentes sem, porém, consumi-la. É porque Deus ali estava.

 

A Igreja, numa antífona das Vésperas do Ofício Parvo, consagra esta figura de Maria com estas palavras: “Na sarça que Moisés viu arder sem se consumir, reconhecemos vossa admirável virgindade conservada intacta ao passo que vos tornáveis a Mãe de Deus. Rubum quem viderat…

 

 

Maria prefigurada por pessoas

 

26. Eva. – Eva foi a figura de Nossa Senhora por semelhança e por contraste. Foi a mãe do gênero humano culpado, pois, atendendo ao demônio que lhe falava na árvore do Paraíso Terrestre, levou, por sua desobediência, os homens à perdição. Nossa Senhora é a nova Eva, mãe do gênero humano regenerado pelo novo Adão, Jesus Cristo. Ao pé da cruz, árvore da vida, tornou-se nossa mãe, ouvindo a Jesus que a ela nos confiava e pondo-nos todos no caminho da salvação.

 

27. Judite. – Judite é a heroína que salvou a cidade de Betúlia assediada por Holofernes, decepando-lhe a cabeça. Verdadeira figura de Maria.

 

1º Porque também Maria, de certo modo, corta a cabeça de Holofernes, isto é, abate o poder do demônio que assedia o coração dos eleitos.

 

2º Judite demonstrou força de alma maravilhosa e rara prudência para se conservar pura e inocente no meio de inimigos pagãos e corruptos. Maria, por sua vez, nos aparece sem mácula no meio do mundo pecador.

 

3º Finalmente, assim como o povo de Betúlia libertado do tirano publicou os louvores de Judite, assim também a Igreja cobre de bênçãos a Maria Santíssima que, por Jesus, nos livrou da tirania do demônio.

 

A liturgia católica repete a Nossa Senhora os mesmos louvores endereçados a Judite: “Sois a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de nosso povo”. (Tu glória Jerusalém… Ofícioda Imaculada Conceição).

 

28. Esther. – Esther, jovem judia, esposa do rei Assuero, salvou seu povo que um decreto condenava ao extermínio, apresentando-se diante do soberano, apesar da proibição que lhe ameaçava a vida. É uma das mais tocantes figuras de Nossa Senhora.

 

1º Esther, educada na humildade, é chamada por Assuero que é encantado por sua beleza e com ela reparte as glórias do trono. Nossa Senhora, também, criada humildemente, à sombra do templo, é escolhida por Deus que atraído pelas suas virtudes lhe comunica o seu poder e a sua glória.

 

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2º Nossa Senhora, por sua Imaculada Conceição, foi isenta da lei da morte que atingia a humanidade, como Esther foi dispensada de qualquer castigo por Assuero, que lhe disse: “Esta lei não foi decretada por vós”.

 

3º Enfim, como Esther conseguiu a graça de seu povo inocente, Nossa Senhora obtém de Deus a graça da salvação, até para os pecadores que a invocam.

 

29. Outras figuras de Maria. – Estas são deveras as principais figuras de Maria. Mas muitas outras pessoas ou cousas, no Antigo Testamento, oferecem semelhanças assas notáveis para evocar a lembrança de Nossa Senhora. Estas figuras entraram na liturgia da Igreja; encontram-se nos escritos dos santos Doutores; inspiram o pincel dos artistas na decoração das igrejas e o estro dos poetas numa maravilhosa floração de hinos e cânticos piedosos. E quantos não se satisfizeram com uma mera semelhança.

 

30. Exemplos. – A terceira lição do Ofício Parvo de Nossa Senhora enumerou sucessivamente, como figuras simbólicas de Nossa Senhora, o cedro do Líbano, o cipestre do monte Sião, a palmeira da planície, o plântano das margens dos rios, porque estas árvores, além de serem as mais belas do Oriente, elevam-se muito acima das outras, como Nossa Senhora no meio dos santos.

 

A rosa de Jericó lembra o brilho de seus méritos; a linda oliveira que dá o óleo, símbolo da graça, recorda que ela nos deu Jesus; o cinamomo e a mirra, suaves perfumes, evocam o bom odor de suas virtudes.

 

31. Prática. – Recomentar a Nossa Senhora nosso porvir, nossa vida inteira.

 

 

32. Leitura. – O culto de Nossa Senhora no Oriente.

 

É possível encontrar, no Oriente, provas da devoção a Nossa Senhora bem mais antigas que as do Ocidente, onde foi preciso esperar a conversão dos bárbaros para que o povo fosse inteiramente cristão. Os orientais, mesmo depois de se haverem tornado cismáticos, são devotíssimos de Nossa Senhora. Constantinopla, fundada em 311 por Constantino, foi consagrada a Nossa Senhora. Esta cidade que por tanto tempo foi a capital do mundo, recorria, em todos os perigos, à sua excelsa protetora. Contavam-se no seu recinto até cinqüenta e nova igrejas dedicadas a Nossa Senhora. Durante os numerosos cercos que a cidade sofreu, a veneranda imagem de Nossa Senhora era carregada em procissão, sobre as muralhas, com as face voltada para os Bárbaros, como para melhor lhe mostrar o perigo.

 

Há doze séculos que a igreja grega canta cada ano uns hinos de gratidão a Nossa Senhora a quem atribui haver sido Constantinopla salva várias vezes do perigo dos Bárbaros, notadamente dos Árabes, em 711. Com efeito, naquele ano, os muçulmanos vieram assediá-la com tropas inumeráveis, avaliadas por certos historiadores em cerca de 500.000 homens. Ora, no decorrer deste cerco memorável, sobreveio um inverno tão rigoroso que este imenso exército quase inteiro pereceu nas neves de frio e de doenças; 5.000 homens apenas voltaram à Síria.

 

A Grécia e o Líbano estão ainda cheios de capelas consagradas a Nossa Senhora. Por toda parte vê-se a imagem de Maria exposta e venerada e a família mais humilde faz questão de honra de, na intimidade do lar, tributar-lhe suas homenagens e orações.