Canonização do Papa João Paulo II

  

A canonização de João Paulo II

 

Karol Wojtyla, o único Papa polonês, ocupou gloriosamente o trono de São Pedro por 28 anos. No primeiro dia de seu pontificado, proferiu as palavras surpreendentes que marcariam essas quase três décadas:

 

Não tenham medo de receber Cristo e aceitar o seu poder! [...] Não tenham medo! Abram, antes, escancaradamente, as portas para Cristo! Ante o Seu poder salvador, abram as fronteiras dos Estados, os sistemas econômicos e políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento. Não tenham medo!
 
Repetida milhões de vezes por uma miríade de filhos e admiradores, a exortação passou a ser símbolo de seu pontificado. Assumindo o nome de João Paulo II e tomando como lema uma afirmação de devoção à Virgem Maria (Sou todo seu), deu exemplo de coragem e combatividade até o último suspiro.
 
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De volta a Cracóvia, onde fora bispo, eletrizou a população que acabou por derrubar o regime comunista que oprimia a Polônia desde o fim da II Grande Guerra, desencadeando-se com isso uma sucessão de eventos que acabaria por derrubar o regime ateu da ex-União Soviética.

 

Sua obra mais notável, porém, foi desmantelar o “espírito do tempo” que assolava a Igreja há quase um século – o modernismo. Restaurou a piedade, o valor da oração, a pureza dos sacramentos, o senso do sobrenatural e da missão da Igreja. Por meio de documentos esclarecedores, como a encíclica “O Esplendor da Verdade” – que restabeleceu o sentido da moral e da necessidade da colaboração com Deus na obra da salvação -, o Papa Wojtyla conseguiu reposicionar a Igreja de Cristo no mundo moderno. Seus ensinamentos, impregnados do carisma pontifício, conseguiram preencher as lacunas que afligiam os católicos havia quase um século e levaram à superação do confronto entre espiritualidade e a vida no mundo em vertiginosa transformação.

 

O prestígio pessoal de que gozou em vida pode ser medido pelo seu funeral, que atraiu mais de 150 chefes de estado e por volta de 4 milhões de fiéis.
  

Um autêntico santo

 

Mas o Papa João Paulo II foi, antes de tudo, um homem de fé. Como operário durante a invasão nazista, consagrou-se a Maria Santíssima na qualidade de escravo perpétuo. A ela entregou “todas as suas boas obras, passadas, presentes e futuras” e renunciou a todos os méritos que delas pudessem advir – um ato de absoluta confiança no poder intercessor de Maria.

 

Seu sucessor, o Papa Bento XVI, fez seu elogio fúnebre e assim o descreveu:

 

Poderíamos definir João Paulo II como um Papa totalmente consagrado a Jesus, por meio de Maria, como era bem evidenciado no seu lema: “Totus tuus”. Foi eleito no coração do mês do Rosário, e o terço que ele tinha frequentemente nas mãos tornou-se um dos símbolos do seu pontificado, sobre o qual a Virgem Imaculada velou com desvelo materno. (…) Contemplativo e missionário: assim foi o amado Papa João Paulo II. Foi-o, graças à íntima união com Deus, cotidianamente alimentada pela Eucaristia e por prolongados momentos de oração.
  

O apóstolo dos leigos

 

Uma das características de sua inconfundível obra foi ter atraído os leigos para participar na missão evangelizadora da Igreja, quando redefiniu como regiões prioritárias de evangelização não mais as nações ainda pagãs, mas as antigas nações cristãs. Na exortação apostólica “Aos leigos fiéis a Cristo”, diz:

 

Países inteiros e nações, onde a religião e a vida cristã foram em tempos tão prósperas e capazes de dar origem a comunidades de fé viva e operosa, encontram-se hoje sujeitos a dura prova, e, por vezes, até são radicalmente transformados pela contínua difusão do indiferentismo, do secularismo e do ateísmo. É o caso, em especial, dos países e das nações do chamado Primeiro Mundo, onde o bem-estar económico e o consumismo, embora à mistura com tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver “como se Deus não existisse”. Ora, a indiferença religiosa e a total insignificância prática de Deus nos problemas, mesmo graves, da vida não são menos preocupantes e subversivos do que o ateísmo declarado[...].

 

Noutras regiões ou nações, porém, conservam-se bem vivas ainda tradições de piedade e de religiosidade popular cristã; mas, esse património moral e espiritual corre hoje o risco de esbater-se sob o impacto de múltiplos processos, entre os quais sobressaem a secularização e a difusão das seitas. Só uma nova evangelização poderá garantir o crescimento de uma fé límpida e profunda, capaz de converter tais tradições numa força de liberdade autêntica.

 

Ora, os fiéis leigos, por força da sua participação no múnus profético de Cristo, estão plenamente envolvidos nessa tarefa da Igreja. Pertence-lhes, em particular, dar testemunho de como a fé cristã, mais ou menos conscientemente, ouvida e invocada por todos, seja a única resposta plenamente válida para os problemas e as esperanças que a vida põe a cada homem e a cada sociedade. Será isso possível, se os fiéis leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana actividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra inspiração e força para se realizar em plenitude.
  

A canonização

 
O Bem-aventurado João Paulo II será elevado aos altares no dia 27 do próximo mês de março – o que abrirá uma nova era de influência de sua magnífica obra. Com certeza, para nós, brasileiros, não será apenas mais um santo, mas o intercessor que carinhosamente aprendemos a chamar de João de Deus.