CRISTOFOBIA I - Um livro-embuste

O CÓDIGO DA VINCI

 

O romance policial O CÓDIGO DA VINCI de Dan Brown tornou-se em pouco tempo no maior “best-seller” dos últimos tempos. Segundo os entendidos já se venderam mais de quinze milhões de exemplares. Afirmam alguns que é a “Nova Bíblia descodificada”. Dizem outros que se trata de um romance com o fim de arrasar todas as verdades da Igreja Católica ao longo dos séculos.

 

O autor fornece-nos na capa da obra duas afirmações estranhas: por um lado apresenta a obra como ROMANCE e, por outro, afirma: “Uma verdade escondida durante séculos é finalmente revelada!” Pergunta-se: como é possível que um romancista nos forneça, em género literário ROMANCE, uma verdade histórica escondida durante séculos? Esperávamos que semelhante trabalho saísse das mãos de um historiador, mas nunca de um romancista. Os romancistas realizam obras de arte literária a partir dos historiadores ou, então, da construção ficcional das respectivas personagens. Mas não lhes assiste o direito de deturparem a história.

 

O autor afirma na p. 11 sobre O Priorado de Sião : “Sociedade secreta europeia fundada em 1099, é uma organização real. Em 1975, a Bibliothèque National de Paris descobriu um conjunto de pergaminhos, conhecidos como Les Dossiers Secrets, que identificam numerosos membros do Priorado de Sião, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci”. Tal descoberta não passa duma “farsa” desmontada por historiadores recentes (ver Bruce Boucher, New York Times de 3 de Agosto 2003).

 

O romance tem por trama um assassínio que prende o leitor até à descoberta final. Partindo de Paris, somos levados até Londres, onde, na Charter House da abadia de Westminster, é revelada a identidade do “Mestre” que tinha arquitectado os assassínios. Como prova apresenta a última Ceia de Leonardo Da Vinci. O grande génio pinta a figura da Madalena à direita de Jesus, e não o apóstolo João. Defende que Jesus tinha casado com Maria Madalena, da qual tinha um filho. Maria Madalena era o célebre Santo Graal do sangue de Cristo. Estava, assim, desvendada a verdade escondida durante séculos. Mais ainda, Madalena, por disposição de Jesus, devia suceder-lhe na condução da Igreja dos discípulos. Mas a Igreja dos homens , dos Doze e dos que se lhe seguiram, tudo fizeram para calar o ministério da Madalena, transformando-a numa prostituta.

 

Descoberto o “segredo” do Priorado de Sião, o Superior Geral do Opus Dei promete ajudar o Vaticano a liquidar os frutos humanos remanescentes da descendência do filho de Jesus e da Madalena. Para tanto, contrata-se um ex-killer convertido, agora monge do Opus Dei. O Priorado de Sião oferece ao ex-killer os segredos do cryptex (pequeno cilindro de pedra) que contém o segredo. Tratava-se, então, de assassinar os últimos quatro remanescentes e expoentes do Priorado de Sião, que pertenciam à família de Jesus.

 

Os amores de Jesus com a Madalena é um assunto de monta, porque aparecem, de facto, nos evangelhos apócrifos e gnósticos dos primeiros séculos da era cristã, que o autor defende serem os verdadeiros evangelhos, entretanto desprezados pelos homens da Igreja de então, que impuseram à Igreja os actuais quatro evangelhos “canónicos”: Mateus, Marcos, Lucas e João. Porém, está mais que provados que os evangelhos sinópticos e João pertencem ao século primeiro e que os evangelhos gnósticos são muito posteriores. Estes amores de Jesus e Madalena já foram objecto de outros livros, sobretudo de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincol na obra Holy Blood, Holy Grail (1982). Defendem a tese de que várias famílias reais da Europa descendem de Jesus e da Madalena. O nosso Dan Brown não vai tão longe pois defende que apenas os antigos Merovíngios pertenciam ao sangue de Jesus.

 

Há, ainda, muitos outros aspectos dignos de nota. O autor afirma que foi o imperador Constantino quem impôs a lei do dia do Domingo como obrigatório para o culto cristão. Nisto há apenas uma meia verdade. O Domingo como dia de culto cristão já aparece nos Actos dos Apóstolos 20, 7 e Apocalipse 1, 10. O que Constantino determinou a 3 de Março de 321 foi o Domingo como dia de repouso, substituindo o sábado judaico. Afirma que Constantino pressionou o Concílio de Niceia de 325 para proclamar a divindade de Jesus, mas tal doutrina aparece clara nalguns textos do Novo Testamento (ver João 1, 1; 10, 30; 20, 28; Mateus 28, 19). O que o Concílio de Niceia trouxe de novidade foi a modalidade de apresentar a divindade de Jesus em relação ao Pai: “consubstancial ao Pai”. Afirma que o tetragrama sagrado YHWH do nome de Deus deriva de JEOVá, uma união física andrógina do masculino Yah com o pré-hebraico nome de Eva, Havah. é uma afirmação puramente gratuita. A pronúncia JEOVá é fruto das consoantes hebraicas (o hebraico não tinha vogais) e das vogais, entretanto impostas, do nome divino ADONAI. Só a partir do séc. XVI é que alguns cristãos começaram a pronunciar e escrever o nome JEOVá. Trata-se, pois, de um artifício literário.

 

Em toda esta trama é importante saber o que dizem os evangelhos apócrifos, mormente os gnósticos, objecto de lutas entre os chamados Padres da Igreja dos primeiros séculos com os defensores gnósticos cristãos, que formavam uma pequena Igreja paralela à grande Igreja, em processo de formação teológica, sacramental e ministerial. Tais evangelhos reapareceram nas ruínas de Nag-Hammadi , no centro do Egipto, a partir de 1947, hoje em dia publicados e estudados pelos académicos de história e exegese, mormente na Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha, etc. Escolhemos apenas alguns textos mais significativos para, depois, apresentarmos o nosso parecer teológico e exegético.

 

Evangelho de Tomé, (datado + ou – de 200 p. C.) logion 21: “Simão Pedro disse-lhes [aos discípulos]: ‘Que Maria [Madalena] nos deixe, porque as mulheres não são dignas da vida’. Jesus disse: ‘Eu mesmo a guiarei para fazer dela um varão, para que também ela chegue a ser um espírito como vós, varões. Porque qualquer mulher que se transformar em varão entrará no Reino dos Céus.”

 

Evangelho de Filipe (datado de finais do séc. II-meados do séc. III), n. 63: ” E a companheira ( koinônós ) do Salvador, Maria Madalena, Cristo amava-a mais do que aos outros discípulos e costumava beijá-la na boca muitas vezes. Os outros discípulos ofendiam-se com esta atitude e manifestavam o seu desagrado….”

 

Evangelho de Maria (do séc. V d. C.), 9, 12ss: “Pedro disse a Maria: ‘Irmã, nós sabemos que o Salvador te amou mais do que a todas as mulheres; diz-nos as palavras do Salvador que recordas e que conheces, mas que nós não conhecemos nem ouvimos’. Maria responde e diz: ‘O que vos está escondido eu vo-lo anuncio.’ E ela começou a relatar a sua revelação….’”; 17, 7ss: “é lá possível que ele [o Salvador] tenha falado com uma mulher em segredo e não às claras? Devemos, porventura, mudar as nossas atitudes e escutar esta mulher? Poderia ele preferi-la a nós?”

 

Pistis Sofia (do séc. III d. C.), n. 36: “Maria falou e pergunta quem entendeu para que possa dar a explicação. Maria Madalena fê-lo em várias ocasiões. Então Pedro adianta-se e diz a Jesus: ‘Meu Senhor, não podemos aguentar esta mulher, que nos tira a oportunidade de falar e não permite que alguém fale porque está sempre a perguntar.’ Jesus responde a Pedro e diz que quem deve falar é aquele a quem o Espírito impulsiona como no caso de Mariam.’. n. 72: “Maria veio diante de Jesus e disse: ‘Senhor meu, a minha mente entende que deveria adiantar-me e dar a interpretação, mas tenho medo de Pedro que me odeia e odeia a nossa raça.’”

 

Estes exemplos são suficientes para concluirmos o seguinte: Os cristãos gnósticos associavama filosofia de Platão à fé cristã e defendiam que o verdadeiro cristão era aquele que, por iniciação gnóstica, descobria, pouco a pouco, os segredos do Reino dos Céus. Tais segredos pertenciam apenas aos homens. Só eles eram dignos do reino da Vida, ao contrário das mulheres. Para que estas pudessem participar de tais segredos e Vida tinham que, por iniciação gnóstica, transformar-se em homens/varões. Desta forma, os gnósticos desprezavam o casamento e tudo o que se relacionava com o sexo e corpo. Pretendiam atingir o pleroma , plenitude do segredo e felicidade, pela iniciação gnóstica. Serviam-se de Maria Madalena para defenderem a sua igreja contra a igreja de Pedro já que Madalena, no cap. 20 de João, aparece como íntima discípula de Jesus. Uma vez tornada varão, recebe as “revelações” gnósticas do Salvador e ensina-as aos discípulos. Desta forma, para os gnósticos, o ideal humano residia na androginia, anterior à separação sexual de Adão e Eva. E é assim que para os gnósticos só lhes interessa um Salvador de lógia , isto é, de “sentenças doutrinais” e não de parábolas, milagres e, muito menos, de paixão e morte numa Cruz. Mas o verdadeiro Cristianismo reside no mistério da encarnação, paixão e morte de Jesus.

 

Os gnósticos são importantes como estudo cultural dos primeiros séculos, mas nada adiantam ao verdadeiro Jesus. Dan Brown, como tantos outros, defende os amores de Jesus com a Madalena, seu casamento, mas não entende que estes “amores” não são físicos, mas de espiritualidade gnóstica, de tal modo que o maior dos sacramentos era o do “quarto nupcial”.

 

O encanto pelo romance de Dan Brown reside no enredo policial à volta de segredos nunca antes revelados, da defesa pelo eterno feminino divinizado, da magia pelo mistério sem fé , da crítica surda à Opus Dei e a toda a história tradicional do Cristianismo, sobretudo na forma da Igreja Católica. A obra é importante pelos reptos e desafios que lança ao Cristianismo e à Igreja. Pena é que tenha sido a custos de falsidades históricas conscientes, desejadas, inventadas.

 

Umberto Eco escreve sobre todos estes assuntos o seguinte:

 

“Não há nada mais simples do que encontrar um livro sobre os Templários.

 

O único problema é que em 90% dos casos (desculpem, 99%) tais livros são patranhas, porque nenhum assunto inspirou tantos pensadores medíocres ao longo dos tempos como a história dos Templários.

 

E daí o renascimento contínuo dos Templários e a sua presença constante por detrás dos acontecimentos históricos, seja com seitas gnósticas, irmandades satânicas, espiritualistas, ordens pitagóricas, Ordem da Rosa-Cruz, maçonaria ou o Priorado do Sião.

 

às vezes a patranha é clamorosamente evidente, como em O Sangue de Cristo e o Santo Graal de Michael Baigent, Henri Lincoln e Richard Leigh, onde a má-fé dos autores é tão manifesta como inescrupulosa. Mas, pelo menos, isso permite ao leitor com bom senso ler a obra como um exemplo divertido de literatura fantástica. Tal como acontece actualmente com O Código Da Vinci, que é uma versão remisturada de várias obras anteriores.” (ver “Templários credíveis” em DN 6 de Janeiro 2005, p. 7

 

Publicado em www.paroquias.org